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BREVE HISTÓRICO SOBRE O AUTISMO INFANTIL

Por Janaynna Mayara Teixeira Póvoas

Introdução

O autismo é um distúrbio do desenvolvimento humano que vem sendo estudado pela ciência há quase seis décadas, mas sobre o qual ainda permanecem, dentro do próprio âmbito da ciência, divergências e grandes questões por responder.
Ultimamente, não só vem aumentando o número de diagnósticos, como também estes vêm sendo concluídos em idades cada vez mais precoces, dando a entender que, por trás da beleza que uma criança autista possa ter e do fato de o autismo ser um problema de tantas faces, as suas questões fundamentais vêm sendo cada vez mais reconhecidas, e com mais facilidade, por um número maior de pessoas. Provavelmente é por isto que o autismo passou de um fenômeno aparentemente raro para um muito mais comum do que se pensava (MELLO, 2003).
Neste trabalho, teremos conhecimento sobre a história do autismo, manifestações clínicas, os primeiros estudos epidemiológicos sobre o tema, sua etiologia e principais características.

História do autismo

A palavra “autismo” deriva do grego “autos”, que significa “voltar-se para si mesmo”. A primeira pessoa a utilizá-la foi o psiquiatra austríaco Eugen Bleuler para se referir a um dos critérios adotados em sua época para a realização de um diagnóstico de Esquizofrenia. Estes critérios, os quais ficaram conhecidos como “os quatro As de Bleuler”, são: alucinações, afeto desorganizado, incongruência e autismo. A palavra referia-se à tendência do esquizofrênico de “ensimesmar-se”, tornando-se alheio ao mundo social – fechando-se em seu mundo, como até hoje se acredita sobre o comportamento autista (SILVA, 2009).
Em 1943, o psicólogo norte-americano Leo Kanner estudou com mais atenção 11 pacientes com diagnóstico de esquizofrenia. Observou neles o autismo como característica mais marcante; neste momento, teve origem a expressão “Distúrbio Autístico do Contato Afetivo” para se referir a estas crianças. O psicólogo chegou a dizer que as crianças autistas já nasciam assim, dado o fato de que o aparecimento da síndrome era muito precoce. À medida que foi tendo contato com os pais destas crianças, ele foi mudando de opinião. Começou a observar que os pais destas crianças estabeleciam um contato afetivo muito frio com elas, desenvolvendo então o termo “mãe geladeira” para referir-se às mães de autistas que, com um jeito frio e distante de se relacionar com os filhos, promoveram neles uma hostilidade inconsciente, a qual seria direcionada para situações de demanda social (SILVA, 2009).
As hipóteses de Kanner tiveram forte influência no referencial psicanalítico da síndrome que pressupunha uma causa emocional ou psicológica para o fenômeno, a qual teve como seus principais precursores os psicanalistas Bruno Bettelheim e Francis Tustin.
Bettelheim, em sua terapêutica, incitava as crianças a baterem, xingarem e morderem uma estátua que, pelo menos para ele, simbolizava a mãe delas. Tustin, por outro lado, acreditava em uma fase autística do desenvolvimento normal, na qual a criança ainda não tinha aprendido comportamentos sociais e era chamada por ela de fase do afeto materno, funcionando como uma ponte entre este estado e a vida social. Se a mãe fosse fria e suprimisse este afeto, a criança não conseguiria atravessar esta ponte e entrar na vida social normal, ficando presa na fase autística do desenvolvimento. Em 1960, no entanto, a psicanalista publicou um artigo no qual desfaz a ideia da fase autística do desenvolvimento (SILVA, 2009).
Naquela época, a busca pelo tratamento psicanalítico era muito intensa. Muitas vezes, as crianças passavam por sessões diárias, inclusive no domingo. O preço pago era muito alto. Muitas famílias vendiam seus bens na esperança de que aquele método as ajudasse a corrigir o erro que haviam cometido na criação de seus filhos.
Com o advento da década do cérebro, no entanto, estas ideias começaram a ser deixadas de lado – além de não estarem satisfazendo as expectativas dos pais. A partir de 1980, foram surgindo novas tecnologias de estudo, as quais permitiam investigação mais minuciosa do funcionamento do cérebro da pessoa, com exames como tomografia por emissão de pósitrons ou ressonância magnética. Doenças que anteriormente eram estudadas apenas a partir de uma perspectiva psicodinâmica passaram a ser estudadas de maneiras mais cuidadosas, deixando de lado o cogito cartesiano (SILVA, 2009).
Já na década de 60, o psicólogo Ivar Lovaas e seus métodos analítico-comportamentais começaram a ganhar espaço no tratamento da síndrome. Seus resultados apresentavam-se de maneira mais efetiva do que as tradicionais terapias psicodinâmicas. E, já naquela época, as psicologias comportamentais sofriam forte preconceito por parte dos psicólogos de outras abordagens. Durante as décadas de 60 e 70, os psicólogos comportamentais eram consultados quase que apenas depois que todas as outras possibilidades haviam se esgotado e o comportamento do autista tornava-se insuportável para os pais e muito danoso para a criança.

Epidemiologia

O primeiro estudo epidemiológico sobre autismo foi realizado em 1966 na Inglaterra, por Lotter, que encontrou uma taxa de 4,1 para 10.000 crianças entre 8 e 10 anos. Desde então, dezenas de estudos epidemiológicos vêm sendo publicados, observando-se um considerável aumento nas taxas de prevalência com o passar dos tempos, deixando de ser um transtorno raro. Durante o período de 1966 a 1991, a taxa média para autismo infantil encontrada nos estudos era de 4,4/10.000. Posteriormente, a prevalência atingiu 12,7/10.000, nos estudos realizados até 2001, sendo que os índices mais atuais sugerem 10 para 10.000 indivíduos com autismo clássico e cerca de 30 a 60 para 10.000 para o espectro autista (Williams, Brayne, 2006).

Definição e conceito

O autismo é uma síndrome comportamental com características de um distúrbio de desenvolvimento. Caracteriza-se por disfunções a nível das capacidades físicas, sociais e linguísticas; anormalidades no relacionamento com objetos, eventos e pessoas. Estudos realizados demonstram que os fatores emocionais não são causadores isolados da doença, e que fatores biológicos aparecem em quase ou em todos os casos de autismo, porém ainda não foi descoberto um marcador biológico específico (AARONS, 1992).
De acordo com Schwartzman (2010), em 1943, o autismo foi conceituado pela primeira vez por Leo Kanner como uma doença da linha das psicoses, caracterizada por isolamento extremo, alterações de linguagem representadas pela ausência de finalidade comunicativa, rituais do tipo obsessivo com tendência a mesmice e movimentos estereotipados. Nessa abordagem, a doença tinha suas origens em problemas das primeiras relações afetivas entre mãe e filho, que comprometiam o contato social, ideia extremamente difundida até meados dos anos 70. Hoje, essa doença é definida como um conjunto de sintomas de base orgânica, com implicações neurológicas e genéticas. Atualmente, o autismo é uma área de intenso interesse, em que diferentes estudos se estabelecem e promovem desde alterações conceituais até modificações terapêuticas de fundamental importância.
No autismo existem três desvios, que ao aparecerem juntos o caracterizam. Estes foram chamados por Lorna Wing e Judith Gould, em seu estudo realizado em 1979, de "Tríade". A Tríade é responsável por um padrão de comportamento restrito e repetitivo, mas com condições de inteligência que podem variar do retardo mental a níveis acima da média.
É muito difícil imaginar estes três desvios juntos. Um exercício que pode ajudar é o proposto em palestras no Brasil pela pesquisadora Francesca Happé, de imaginar-se na China, ou em um país de cultura e língua desconhecidas, com as mãos imobilizadas, sem compreender os outros e sem possibilidades de se fazer entender (MELLO, 2003).

Manifestação clínicas

As manifestações clínicas que definem o autismo incluem défices qualitativos na interação social e na comunicação, padrões comportamentais repetitivos e estereotipados e um repertório restrito de interesses e atividades (Oliveira, 2006; Siegel, 2008).
De acordo com o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual de Estatística e Diagnóstico de Transtornos Mentais) da American Psychiatric Association (Associação Americana de Psiquiatria, quarta edição (DSM-IV), as crianças com autismo atendem pelo menos seis dos seguintes critérios:

Problemas sociais:

• não usam adequadamente os comportamentos não verbais, como gestos e expressões faciais; 
• não conseguem se relacionar com crianças da mesma idade; 
• não compartilham espontaneamente objetos ou interesses com os outros; 
• não apresentam reciprocidade social ou emocional.

Problemas comunicativos: 

• são lentos para falar; 
• têm dificuldade para manter uma conversa; 
• usam a mesma linguagem de modo repetido; 
• não participam de atividades com crianças da mesma idade ou de jogos sociais.

Comportamentos repetitivos: 

• são extremamente preocupados com um ou mais interesses; 
• são inflexíveis e não gostam de mudar a rotina; 
• repetem os movimentos ou os modos (como bater os braços, acenar ou torcer); 
• preocupam-se com as peças dos objetos.

Etiologia

A etiologia do Autismo ainda não foi definida. Não existe uma etiologia básica fundamental para todas as causas de Autismo. As evoluções na pesquisa científica têm vindo a apontar para o fator de poderem existir diversas causas, algumas presentes, outras não, em determinada pessoa, que refletem a heterogeneidade das pessoas com autismo (SILVA, 2006).
Parece existir uma pré-disposição genética que pode dar origem ao aparecimento de autismo. Alguns fatores pré e peri-natais podem igualmente jogar um papel determinante. Pode ter de haver uma conjunção entre o potencial genético e o meio ambiente (ex.: infecções virais, exposição a determinados componentes do ambiente, desequilíbrios metabólicos). Uma causa conhecida reúne o consenso: o autismo é causado por anomalias nas estruturas e funções cerebrais.

CONCLUSÃO

O autismo é uma alteração comportamental que afeta a capacidade da pessoa comunicar, de estabelecer relacionamento e de responder apropriadamente ao ambiente que o cerca. O comportamento dos autistas é constituído por atos repetitivos e estereotipados, e eles não estão aptos a mudanças de ambientes e preferem um contexto inanimado. Contudo, com uma estimulação constante e a forma em que é estimulada, a criança consegue interagir com o ambiente e com outras pessoas também. Para isso, não foge ao olhar terapêutico que cada criança precisa ser entendida, de acordo com sua forma de ver o mundo e as outras pessoas. Trabalhando em cima de boa qualidade de vida e priorizando sua independência junto ao meio em que vive, proporciona-se a esta ganhos e conquistas ao longo do processo terapêutico.

REFERÊNCIAS:

Oliveira, A. C. (2002). O autismo e as “crianças-selvagens”: da prática da exposição às possibilidades educativas. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/psoc/v21n1/08.pdf>. Acesso em 15/04/2012
SILVA, Alexandre Costa. Abordagem Comportamental do Autismo. Disponível em http://www.psicologiaeciencia.com.br/autismo-um-breve-historico. Acesso em: 16/04/2012
SCHWARTZMAN, José Salomão. Autismo e outros transtornos do espectro autista. Revista Autismo, edição de Setembro de 2010. 
WILLIANS J, BRAYNE C. Screening for autism spectrum disorders. Autism. 2006; 10(1):11-35. Disponível em: http://umolharsobreoautismo.blogspot.com.br/2009/01/epidemiologia.html. Acesso em: 18/04/2012.
CANIGLIA, Marília. Terapia Ocupacional: Um enfoque disciplinar. Belo Horizonte: Ophicina de Arte e Prosa, 2005;
MELLO, Ana Maria S.Ros. Autismo: Guia Prático. 2. ed., 2001.

Janaynna é educadora, reside em Paço do Lumiar/MA e atua na Clínica Núcleo de Saúde.

Comércio e importação de materiais escolares e de escritório.